Vista aproximada de três páginas de livro sobrepostas em diferentes ângulos, exibindo texto impresso em língua portuguesa sobre papel de tom creme

Larissa de Macêdo Silva

Raízes da saudade

Larissa de Macêdo Silva

Estudante do Curso Integrado de Edificações do IFPE-Campus Caruaru

Data: 22 de outubro de 2024.

Meu nascimento foi maléfico, nem tive a oportunidade de ficar nos braços da minha mãe, de sentir o conforto de seu colo. Seria um pouco contraditório dizer que eu morri no dia em que nasci, mas isso não é uma mentira. Eu perdi a minha outra metade. Às vezes penso que tudo seria mais fácil se eu tivesse morrido naquela noite, e não a minha mãe.

Minha festa de 15 anos não foi a dos meus sonhos. Meu pai me abandonou ainda quando criança, ele não aguentou o fardo de criar uma menina sozinho. Fui colocada em um orfanato e fiquei lá até os 16. Quando estava perto dos 15, imaginei como seria a festa dos sonhos: dançava uma valsa com minha mãe e outra com meu pai, viraria a noite dançando e me divertindo com meus amigos. Porém, quando voltei para a realidade, fiquei triste ao lembrar que meu aniversário novamente seria esquecido pelos demais. 

Poucas pessoas sentem a imensidão da minha dor, a dor de nem poder sentir a própria mãe, a dor de não ter uma figura materna para se espelhar durante a vida. Sempre imaginei o quão a minha vida seria mais fácil com a presença dela. Acredito que eu estaria mais feliz e completa, não carregaria em minhas costas o peso de ser um fardo àqueles que estão ao meu redor. Constantemente sinto saudade daquilo que não tive, isso soa como algo divergente, mas garanto que é verídico.

Atualmente tenho 30, estou casada e grávida. Estou no nono mês de gestação e foi aqui que toda a minha história passou diante dos meus olhos. “Vai dar tudo certo, meu amor. Acredite em Deus, ele vai nos conceder a benção de ter uma menininha em nossa vida, para podermos amá-la a qualquer custo”, disse o meu marido. Aquelas palavras me confortaram. Já estava na etapa final da gravidez, o processo foi difícil, inúmeras vezes peguei-me cogitando na ideia de abortar a minha menininha. Porém, lembrei da minha mãe. Se uma pessoa tivesse a probabilidade de não sair viva nessa gestação, essa pessoa seria eu. Jamais faria isso com a minha pequena. Nesses momentos achei interessante contar a minha história e depois mostrá-la à minha querida filha. Lhe dei o nome da minha mãe, o nome da pessoa que eu mais queria ter conhecido e amado durante toda a minha vida. Estou aguardando você, Sofia.


"Larissa de Macêdo Silva" por criadapalavra@gmail.com. Licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0.
O autor retém direitos para publicações comerciais futuras (livros e artigos).

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