Vista aproximada de três páginas de livro sobrepostas em diferentes ângulos, exibindo texto impresso em língua portuguesa sobre papel de tom creme

Silêncios entre palavras

Uriel Nicolas Camilo de Andrade

Estudante do Curso Integrado de Edificações do IFPE-Campus Caruaru

Data: 22 de outubro de 2024.

– “Bom dia! Tá quente hoje, né?”

– “Tá mesmo… Você viu se o ônibus 154 já passou?”

– “Não vi, não. Olha, lá vem o meu.”

O homem embarcou apressado, e eu fiquei lá, olhando ao redor. O diálogo foi tão vazio que me senti como se estivesse num daqueles elevadores em que as pessoas falam qualquer coisa para preencher o silêncio. Não sabia se ria ou se lamentava a situação. Às vezes me pego em conversas assim, aquelas que não levam a lugar nenhum. Era um dia qualquer, só que com um calor insuportável. Eu estava a caminho da casa da minha avó, e a única coisa que me motivava a aguentar o clima era a expectativa do almoço que ela sempre preparava. A fome começava a apertar, e tudo que eu queria era sentar à mesa e me deliciar com as comidas que só minha avó sabia fazer.

Chegando lá, a casa parecia a mesma de sempre, com o cheiro de comida caseira e uma sensação de familiaridade que me confortava. Entrei e vi minha avó na cozinha, mexendo nas panelas.

– “Oi, vó!”

– “Oi, meu filho. Chegou bem? Sente-se, o almoço já tá quase pronto.”

Eu me sentei na sala e, de repente, reparei num quadro na parede que eu nunca tinha notado antes. Era uma pintura abstrata, com cores fortes e pinceladas grossas que não faziam muito sentido para mim. Talvez fosse por isso que o quadro me intrigava tanto. Era feio, confuso, como se alguém tivesse jogado tinta na tela sem pensar muito.

– “Que quadro é esse, vó?”

Ela riu e veio até mim, enxugando as mãos no avental.

– “Ah, foi o Jerisvalda quem me deu. Ele pintou e insistiu para que eu pendurasse aqui. Não queria fazer desfeita, sabe? Mas se você quiser que eu jogue no lixo, é só falar.

Eu ri da sinceridade da minha avó, mas aquele quadro ficou na minha cabeça. Era como se refletisse algo mais profundo. O que parecia ser uma obra feia e sem sentido talvez fosse apenas uma tentativa de expressar algo que não conseguimos entender à primeira vista. E, de certa forma, isso se conectava com o meu dia. Desde a conversa sem propósito no ponto de ônibus até a chegada na casa da minha avó, tudo parecia simples e sem importância, mas havia algo escondido na rotina, algo que eu ainda não tinha percebido.


"Silêncios entre palavras" por Uriel Nicolas Camilo de Andrade. Licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0.
O autor retém direitos para publicações comerciais futuras (livros e artigos).

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