Vista aproximada de três páginas de livro sobrepostas em diferentes ângulos, exibindo texto impresso em língua portuguesa sobre papel de tom creme

Uno

Silas Macedo Cintra Souza

Estudante do Curso Integrado de Edificações do IFPE-Campus Caruaru

Data: 22 de outubro de 2024.

–YES! Você ganhou mais quatro cartas – Silvio grita eufórico – Agora quero ver você tentar ganhar o jogo, Carlos Roberto.

A rodada segue para Elizabeth. Na ventania de uma quarta-feira nublada, ela pega  o baralho que está no pálido chão de cerâmica, decide entre as três cartas amarelas, uma  com o número nove. Delicadamente coloca sobre o baralho, seguida de várias mãos  sobrepondo-o. Silvio é o último a colocar a mão e ganha uma carta.

–NÃO!!! Faltava poucas… poucas cartas… meu jogo vai de arrasta.. – Silvio logo é interrompido por Pedro Álvares.

–Não use esses jargões modernos, amostradinho.

Impaciente, Biyonsé, a próxima a jogar, toma iniciativa jogando a carta do silêncio, o  número sete, cor azul.

O silêncio tomou conta da roda de oito pessoas. O vento frio bate entre as árvores  que estão do outro lado do corredor, separadas por uma grade cinza, na qual Montebranco  Fernada prepara sua jogada. O sorriso pedante dela, esconde uma poderosa armada, um  sete vermelho.

Todos pulam indignados, a quebra de expectativa neles roeu seus estômagos, que  agora gritam em silêncio, disparando reclamações sobre Montebranco enquanto ri como  uma porta enferrujada, transformando-se logo num porco rinchando.

Ela é acusada de fazer barulho, porém a mesma recusa, e então, o local antes de  descanso, vira um cenário de guerra. As cartas voam do liso piso até tocar na grama fresca. –Ei, ei, prestem atenção – Sinaliza Álvaro, indicando que é sua vez – Um presente  misterioso para você Julietta Nordeste.

Ele joga uma carta personalizável escrita: O jogador receptor deverá comprar o dobro  de cartas de seu baralho.

Num misto de raiva e indignação, o grito de Julietta ecoa sobre o longevo corredor.

–POR QUE VOCÊ NÃO VIRA A ESQUERDA E VAI… – Lima Gustavo interrompe-a,  colocando suas mãos pardas nos lábios grossos dela.

– MINHA FILHA, VOCÊ NÃO ESTÁ EM CASA NÃO – O mesmo grita com o último  volume de uma caixa de som da marca JBELI

–Julietta, que modos são esses, silencie-se ao invés de profanar esses sobejos de  palavras – Reclama Montebranco.

–Falou a peppa – Retruca Julietta

– Acho bom você dar uma segurada na emoção aí – Montebranco revida, porém é rapidamente interrompida por um levante de voz de Carlos Roberto

–Minha gente, nem eu que ganhei um “mais 4” de Silvio fiquei irritado assim, vamos  jogar?

Agora é a vez de Carlos Roberto, seus olhos azuis brilhantes e exaltadores, analisa  as cartas, suas sobrancelhas abaixam-se e inclinam-se em um misto confuso e indeciso de  emoções. Das três cartas, joga duas iguais, e anuncia a todos, gritando. – UNO!!! Finalmente ganharei meu cuscuz temperado…

Todos ganham linhas em suas testas, e suas bocas ficam abertas. O clima pesa entre  todos da roda, a concentração se torna total e cada jogada decisiva.

O dedos finos de Gustavo deslizam nas sete cartas de seu baralho, puxando três,  expressas “mais dois”.

– Um tcheretchetê bem gostoso para vocês, beijo do tigrinho. – Expressa Gustavo,  num sorriso de orelha a orelha.

–Não acabou, amor de meu heart. – Grita Silvio, jogando um “mais dois”.  Elizabeth faz a mesma jogada, pegando a carta debaixo de sua calça vermelha,  deslizando-a por todo o sua camisa Verde e branca, cujo todos usavam da mesma,  igualmente.

– Um mais dois para vocês… o que é que estão me encarando? Nunca esconderam  cartas não? – Questiona Elizabeth.

A roda encara-a julgando, porém não ousa suspirar nada.

Biyonsé, sempre impaciente, joga um mais quatro e exclama debochando: – Tenho pena de você Montebranco. Um shine bright like a diamond para você.

– Que maldade amiga – Reclama Elizabeth.

–Você pensou o mesmo.

–Mas foi você que disse.

Ambas caem numa gargalhada maléfica, porém Montebranco não se importa e joga  um mais dois.

–É minha vez, certo – Afirma Álvaro – pera…eu não tenho – Em um movimento triste,  curva a cabeça e pega dez cartas.

A decisão final está em Julietta, apreensiva e nervosa, olha para o baralho. As  paredes brancas que cercam o local estão pálidas demais com o momento. Assim,  recitando um bela frase, joga a última carta.

–Minha gente…O cuscuz tá pronto? Porque…aqui está a carta comunista, vamos  embaralhar tudo de novo e jogar novamente.

– NÃAAAOOOO – Todos gritam.


"Uno" por Silas Macedo Cintra Souza. Licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0.
O autor retém direitos para publicações comerciais futuras (livros e artigos).

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