Vista aproximada de três páginas de livro sobrepostas em diferentes ângulos, exibindo texto impresso em língua portuguesa sobre papel de tom creme

Cinco minutos

Joana Virginia Batista de Almeida

Estudante do Curso Integrado de Edificações do IFPE-Campus Caruaru

Data: 22 de outubro de 2024.

Júlia tinha pressa. Corria de um lado ao outro da casa, juntando  apressadamente seus pedaços. Camisa abotoada pela metade, cabelo ainda na  toalha. Olhou o relógio do quarto, ela não estava atrasada, ainda. Calçou os  sapatos enquanto penteava os cabelos, vestiu o casaco enquanto pegava a  bolsa. Olhou o relógio da cozinha, para ter certeza que o tempo ainda estava lá,  para que pudesse poupá-lo. Saiu de casa, fechou a porta, e, olhando o carro,  arregalou os olhos. Deixara a chave do carro sobre a mesa. Como se sua vida dependesse disso, escancarou a porta, deixando-a aberta depois de passar, foi de encontro à mesa, pegando as chaves. Antes de dar partida no carro, olhou o relógio de pulso

Marisa tinha calma. Olhava pacientemente o interior da sua sacola de feira,  certificando-se mais uma vez que havia comprado tudo de que precisava.  Tomates, laranjas, seu remédio para artrite, espinafre, morangos, farinha, frésias  para o túmulo do marido e leite, era tudo. Ergueu seu rosto enrugado para o céu  azul, deixando ar e aroma de frésias preencherem seus pulmões. Consultou seu  velho relógio de pulso, ainda era cedo. Segurou sua bengala com determinação e pôs-se a caminhar.

As casas eram borrões de tinta, Júlia era velocidade, cruzando ruas, fazendo curvas, apostando corrida com os segundos. Não sabia que tinha  pressa, mas a tinha mesmo assim, cada grão de areia da ampulheta pesava uma  tonelada, cada hora era uma um ano inteiro, cada minuto era uma década e cada  segundo, uma vida. E por isso ela guardava o tempo para viver, e vivia para  guardar o tempo. Em sua casa haviam sete relógios, um em cada cómodo mais  os reservas e reservas dos reservas. Não gostava de surpresas, nutria casos de  desamor com acasos. Tudo tinha que ser previamente planejado, as minúcias antecipadamente registradas, separadas por ordem alfabética, às claras, nunca  oculto. Júlia não tinha amigos, mas visitava seu pai idoso duas vezes por  semana, segundas e sextas pontualmente às dezesseis horas.

Pé ante pé, olhos atentos por trás dos óculos de tartaruga, tentava lembrar  o caminho para casa, sabia que devia cruzar a avenida, mas depois… bom, ela  não sabia ao certo. Havia algum tempo que ela buscava informações e elas  pareciam não estar lá, custava a lembrar coisas simples, como quem eram seus  vizinhos, e porque eles estavam tão diferentes do que ela lembrava. Ao mesmo  tempo, o passado nunca lhe esteve tão claro, como se ele sequer o fosse, como  se ela habitasse um limiar sem tempo.

110,100,80,60,40,0. Mãos tensas no volante, Júlia observa, uma mulher  idosa começou a atravessar a avenida, seu olhar cai sobre o relógio de pulso:   Marisa estava voltando para casa, vivia uma vida tranquila, sem grandes  revoluções, suas maiores aventuras foram suas viagens com seu marido,  embora ela gostasse de pensar que vivia aventuras todos os dias, sempre falava  com o homem mal humorado do correio ou roubava amoras da casa vizinha.

15:55. Ela volta o rosto para o para-brisa, a velhinha colocou os dois pés no  asfalto e se encaminha, como se na Lua estivesse, para seus primeiros passos.  Quando chegasse em casa, poria as frésias na água, hidrataria a pulseira  de couro do relógio.

15:56. Gotas de suor ornam sua expressão impaciente e perplexa, segurando a respiração, o coração acelerado, escutou o toc toc da bengala de  madeira contra o asfalto.

Cinco minutos

E ouviria seu marido insistir, mais uma vez, que seu relógio estava atrasado e que essa era a única justificativa possível para o fato de que ela jamais, em  nenhuma circunstância, chegava na hora.

15:57. Aquela mulher, pensou Júlia, parece capaz de alargar o tempo, não é  como se ela tivesse tempo para economizar, pelo contrário, talvez o tempo a  muito a tenha esquecido.

O que ela negaria, rindo, alegando que era o dele que estava adiantado.  15:58. Agora quase no centro. Pé ante pé, rosto manso.  Ela sempre gostou de brincar com as horas, esticando os minutos e  dobrando os segundos, cinco minutos para atravessar a avenida.

15:59. Pela primeira vez em muito tempo, Júlia desejou que o tempo  passasse.

O relógio estava cinco minutos atrasado.

16:00. Pela primeira vez em muito tempo, Júlia se atrasou.


"Cinco minutos" por Joana Virginia Batista de Almeida. Licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0.
O autor retém direitos para publicações comerciais futuras (livros e artigos).

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