Vista aproximada de três páginas de livro sobrepostas em diferentes ângulos, exibindo texto impresso em língua portuguesa sobre papel de tom creme

Companhia da Madrugada

Thayson Victor de Lima Alves

Estudante do Curso Integrado de Edificações do IFPE-Campus Caruaru

Data: 22 de outubro de 2024.

Eu sou um idiota, um grande idiota. Há cerca de dois anos eu estraguei tudo por conta  do meu egoísmo. Uma coisa aconteceu que mudou minha perspectiva sobre eu mesmo e  sobre o que acreditava. Eu era apenas um cara frustrado com a vida. Naquele período  passei por muitas perdas, meu emprego estava perdido e minha família simplesmente  desistiu de mim. Sinceramente, não fazia muito para que essa realidade mudasse, na  verdade acho que minha família estava correta fazendo isso. Eu era incompetente, tratava  a vida como se fosse feita inteiramente para mim, como se tudo girasse ao meu redor.  Quando as coisas começaram a desmoronar, simplesmente só esperei que alguém me  salvasse e direcionasse para o caminho mais fácil. Eu sentia que meus problemas eram os  maiores do mundo.

Naquele período comecei a mudar meus hábitos para noite. Acho que a falta de um  horário para despertar ou de alguém me pressionando pra acordar fizeram eu simplesmente  cansar da luz do dia. Minha rotina começou a se resumir a dormir de dia e jogar e caminhar  à noite. Eu não tinha medo, conhecia aquela cidade como a palma da minha mão e minha  família era reconhecida em qualquer esquina. Em uma dessas minhas caminhadas  noturnas, parei em uma praça e fiquei observando o céu. O único pensamento que vinha  em minha cabeça era sobre o quão injusta era minha vida, sobre o universo estar contra  mim. Até que, de repente ela chegou. “Boa noite” ouvi uma voz doce dizer próxima a mim.  Quando virei, deparei-me com uma figura desconhecida. Era uma mulher, seus olhos eram  verdes, seus lábios grossos e sua pele era escura. Tinha certeza que não a conhecia. Vivia  naquele lugar desde que nasci, impossível não reconhecer qualquer pessoa que morasse  ali. Após dialogarmos, ela se ofereceu. Era uma prostituta.

Recusei imediatamente. Não gosto dessas coisas. No momento eu pensei que ela  iria embora, mas, não. Ela se sentou ao meu lado, acendeu um cigarro e começou a fumar.  Após o sorriso dela desaparecer, notei que seu olhar não era doce como sua voz, era triste, parecia tão cansada. Para quebrar aquele constrangimento, questionei ela sobre o porquê se mudou para lá. Ela me respondeu que estava fugindo. “Fugindo do que?” Perguntei e  logo fui bombardeado com toda sua história. Quando ela começou a falar eu não liguei.  Para mim, uma história de uma desconhecida não seria edificante. Mas, cada palavra que  ela soltava mais surpreendido eu ficava.

Ela iniciou com sua infância. Disse que cresceu em uma cidade de um estado  distante. Era pobre, foi abandonada com sua avó quando tinha 8 anos e foi direcionada a  prostituição cedo. De acordo com ela, onde vivia era um vislumbre do inferno. Crianças

moravam nas ruas e eram seduzidas ao mundo das brutalidades, não havia diferenciação  do que era infância. Parecia um cenário distópico de tão triste. Então, ela chorou. Soluçava  lentamente, querendo esconder sua dor. Me contou de seu antigo namorado, que também  era seu chefe. Ele a abusava e espancava, sua fuga era direcionada a ele. Sua dor parecia  imensa. Suas mãos tremiam e sua maquiagem escorria do rosto. Eu simplesmente não  sabia o que fazer, nunca havia conhecido uma alma tão sofrida quanto a que estava ao  meu lado.

Então após algumas tentativas de confortá-la, ela se acalmou. Terminou seu discurso  com “irei partir em alguns dias”. Essa cidade não é para mim…” Toda a empatia que senti  por ela fez com que desejasse a proteger. Ofereci meu lar, minha comida e meu dinheiro.  Ela recusou tudo, isso não me parou. Insisti, mostrei que iria protegê-la e que nada iria  acontecer enquanto estivesse comigo. Então ela aceitou. O silêncio permaneceu após a  aceitação. Começamos a observar estrelas e, após um tempo, fechei meus olhos. Quando  os abri, era manhã, e estava sozinho na praça. A procurei por todo lugar. Procurei por  meses. Todas tentativas falhas. Eu sentia que precisava me redimir com a vida, salvar  aquela dama no qual nem o nome cheguei a saber. Aquela experiência me tornou melhor,  mas, esse fato ainda não consola o vazio de ter perdido aquela companhia da madrugada.


"Companhia da Madrugada" por Thayson Victor de Lima Alves. Licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0.
O autor retém direitos para publicações comerciais futuras (livros e artigos).

Posts Similares

  • Cinco minutos

    Joana Virginia Batista de Almeida Estudante do Curso Integrado de Edificações do IFPE-Campus Caruaru Data: 22 de outubro de 2024. Júlia tinha pressa. Corria de um lado ao outro da casa, juntando  apressadamente seus pedaços. Camisa abotoada pela metade, cabelo ainda na  toalha. Olhou o relógio do quarto, ela não estava atrasada, ainda. Calçou os …

  • Novas Conexões

    Lauriane Istefane Amorim Estudante do Curso Integrado de Edificações do IFPE-Campus Caruaru Data: 22 de outubro de 2024. Era uma manhã ensolarada quando Ana, uma menina de dezessete anos, subiu no  ônibus lotado. Sentou-se ao lado de um garoto que parecia tão animado quanto ela. — Oi! Eu sou a Ana! — disse ela, sorrindo….

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *