A sombra do inconsciente
Estudante do Curso Integrado de Edificações do IFPE-Campus Caruaru
Data: 22 de outubro de 2024.
Em uma daquelas noites de chuva, Pedro, um adolescente de 14 anos, embarcou no ônibus com o coração pesado. A chuva martelava a janela, mas sua mente estava longe, imersa em pensamentos sobre Felício, o cão marrom com manchas brancas que havia sumido. Felício não era apenas um pet; ele representava o último laço de Pedro com a pureza da infância que ele sentia ter deixado para trás.
— Senhor, boa noite.
— Boa noite, rapaz. O que te traz a este ônibus a essa hora?
— Estou procurando Felício, um cão que desapareceu há pouco. Ele sumiu de repente, e nossa família está preocupada.
— É seu cachorro?
— Não, é de um irmão meu. Mas todos estão aflitos. O senhor chegou a vê-lo por aí? O velho senhor deu uma pausa, seus olhos pareciam procurar algo na memória. — Hoje, infelizmente, não vi nenhum cachorro por aqui. Mas desejo que o encontre.
— Agradeço muito — disse Pedro, com alívio pela atenção, embora sem a resposta que desejava.
Ele encostou a cabeça no vidro gelado, e seus olhos, cansados, se fecharam. Quando os abriu novamente, o mundo ao seu redor já não era o mesmo. Estava em uma floresta, envolta por uma neblina densa. Pedro chamou por Felício, mas o que retornou foi apenas o eco de sua própria voz.
Com uma crescente sensação de urgência, ele seguiu em frente, cada passo o levando mais fundo na escuridão. De repente, uma cabana antiga, coberta de musgo, surgiu à sua frente. O medo o fazia hesitar, mas a esperança o empurrava para dentro.
Ao abrir a porta de madeira que rangeu como um lamento, um frio intenso o abraçou. No canto da cabana, lá estava Felício. Mas algo não estava certo. Seus olhos, que antes irradiavam vida, estavam opacos, vazios.
Pedro se virou rapidamente e viu um indivíduo alto, envolto em sombras. Se era possível chamar seu sorriso de malévolo, era quase predatório.
— Apenas quero o meu cão de volta — sussurrou Pedro, esforçando-se para manter a voz firme.
— Ah, rapaz… Você ainda não entende, não é? — a figura falou, sua voz como um vento frio e cortante. — Felício guarda o segredo que você nunca quis enxergar.
Pedro sentiu o peso dessas palavras como uma verdade oculta por muito tempo. Algo em sua mente se agitou: a busca por Felício era mais profunda do que ele havia imaginado. Não era apenas sobre um cão perdido, mas sobre ele, sobre o que estava tentando esquecer.
Determinado, Pedro deu um passo à frente, ignorando o medo que o envolvia.
— Eu não me importo com o que Felício sabe. Ele é meu amigo. E eu vou levá-lo comigo.
A sombra sorriu, um sorriso que pareceu se alongar até distorcer seu rosto.
— Para levá-lo de volta, você terá que enfrentar o que mais teme. Ele está aqui porque você o trouxe. Ele carrega a dor que você nunca quis admitir.
Pedro sentiu o mundo ao seu redor escurecer ainda mais. As vozes da floresta o envolviam, trazendo à tona lembranças que ele havia enterrado: a ausência de seu pai, o distanciamento da mãe, e agora Felício, desaparecendo como um último fio de conexão com tempos mais simples.
Mas, naquele momento, ele percebeu algo. A dor não o derrotava; ela apenas fazia parte de quem ele era. Com essa nova compreensão, Pedro encarou a entidade, seus olhos agora firmes.
O sorriso da sombra vacilou e, em um último movimento de desespero, a entidade se desfez em um grito que ecoou pela cabana e pela floresta.
Felício, como se despertasse de um longo sono, levantou-se devagar e caminhou em direção a Pedro. Seus olhos, antes vazios, agora brilhavam novamente. Pedro se ajoelhou, abraçando o cão com força, sentindo o calor familiar de seu pelo.
Agora, com Felício ao seu lado, Pedro sabia que a busca não era apenas sobre o cão, mas sobre aceitar as partes de si mesmo que ele havia evitado. Com um novo senso de coragem, ele saiu da cabana, sabendo que, mesmo que a jornada fosse árdua, ele estava pronto para enfrentá-la.
"A sombra do inconsciente" por João Pedro Soares de Melo. Licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0.
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