O Ônibus da Senhora Rosa
Estudante do Curso Integrado de Edificações do IFPE-Campus Caruaru
Data: 22 de outubro de 2024.
Todos os dias, João pegava o mesmo ônibus para o trabalho. Era parte de sua rotina diária. Ele saía de casa às 7h, colocava seus fones de ouvido e caminhava até o ponto, onde o ônibus 372 o aguardava. Nada de muito especial. As mesmas ruas, os mesmos passageiros, e uma playlist que o acompanhava para tornar a viagem menos entediante. Entre os passageiros, havia uma senhora idosa que ele sempre via: a Senhora Rosa.
Ela era uma mulher simpática, de cabelos grisalhos e sorriso acolhedor. Sempre com o mesmo “Bom dia, meu filho!” assim que o via. João, com os fones nos ouvidos, mal prestava atenção. Às vezes, tirava um dos fones para responder com um sorriso educado ou um aceno rápido. Mas, todos os dias, a Senhora Rosa parecia determinada a falar com ele. Às vezes falava sobre o tempo: “Hoje vai chover, né? O céu tá carregado”, ou perguntava sobre o trabalho dele, como se fosse uma velha amiga interessada em sua vida.
O curioso era que, não importava o horário, ela estava lá. Se João se atrasasse, pegando o ônibus mais tarde, lá estava ela. Se ele decidisse sair mais cedo, a mesma coisa. A Senhora Rosa sempre estava sentada no mesmo banco, sorrindo e tentando conversar. Algo nisso o incomodava, mas ele nunca deu muita atenção. Talvez fosse coincidência, pensava enquanto ajustava o volume da música.
Um dia, intrigado com a presença constante dela, João decidiu tirar a dúvida. Entrou no ônibus, tirou os fones e, após o tradicional “Bom dia” da senhora, ele se sentou ao lado dela, decidido a perguntar.
“Sabe, eu percebi que a senhora pega esse ônibus todos os dias. Sempre no mesmo banco, sempre com o mesmo sorriso. Como consegue estar aqui em qualquer horário?”, ele perguntou, tentando soar descontraído, mas claramente curioso.
Ela o olhou com aqueles olhos gentis que, pela primeira vez, pareciam carregar uma história muito maior do que ele poderia imaginar. Com um sorriso que agora parecia levemente melancólico, ela respondeu: “Ah, meu filho… eu pego esse ônibus há muito tempo. Mais tempo do que você possa imaginar.”
João franziu a testa, não entendendo bem o que ela queria dizer. “Mas… como assim? Quer dizer que… já faz muitos anos que a senhora faz esse caminho?”
Ela soltou um suspiro leve, olhando pela janela, como se estivesse revivendo memórias distantes. “Sim, fazia esse caminho todos os dias, como você. Sempre a caminho do trabalho. Mas um dia, não cheguei lá.”
Aquilo soou estranho. João, já com os fones pendurados no pescoço, se remexeu no banco, desconfortável. “Como assim?”
A Senhora Rosa virou-se lentamente para ele, seus olhos parecendo mais profundos agora, quase tristes. “Eu nunca mais saí desse ônibus, João. Desde aquele dia.”
O ônibus deu uma parada brusca. João piscou, e quando olhou novamente para o banco ao lado… ela não estava mais lá. O banco estava vazio. Ele olhou ao redor, mas ninguém parecia ter notado algo incomum.
Ainda abalado, João desceu do ônibus na próxima parada. A sensação de estranheza o acompanhava. No trabalho, não resistiu e comentou o ocorrido com um colega. Descreveu a senhora, o sorriso, as conversas.
O colega parou o que estava fazendo, e com um olhar surpreso, disse: “João, isso não pode ser verdade. Minha avó… ela se chamava Rosa. Pegava esse mesmo ônibus todos os dias, mas ela morreu há mais de 20 anos… num acidente de ônibus. O ônibus 372.”
João ficou imóvel. A senhora que o cumprimentava todas as manhãs… não estava mais viva. Fazia muito tempo.
"O Ônibus da Senhora Rosa" por Kayky da Silva Santos Aquino. Licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0.
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